Texto de Análise (03) - Lendas e Mitos primitivos

A história da China é, no fundo, a história de um único povo, com uma única língua e um sistema de escrita que, em princípio, não mudou desde o início, há cerca de três mil anos. Ninguém se impressionou tanto com a Antigüidade da sua tradição cultural como os próprios Chineses. Os confucionistas reivindicavam ter baseado a sua filosofia política e moral no caráter e nas leis dos primitivos reis da dinastia Zhou. A lista ortodoxa de governantes chineses que se supõem terem governado todo o país começa com um ano do calendário que corresponde ao ano 2852 a.C. Vem primeiro o período dos Cinco Chefes. Muitos dos reis têm um caráter plenamente lendário, sendo-lhes atribuídos reinados inverossimilmente longos. A idéia que hoje formamos da história primitiva e lendária e da mitologia primitiva da raça chinesa é, em grande parte, resultante dos comentários e interpretação dos confucionistas. A sua grande preocupação foi a de projetar o sistema dinástico para tempos o mais recuados possível. Se a existência de imperadores governando toda a China na mais remota antigüidade justificou o papel de Shih Huang di, o primeiro unificador da China e dos imperadores que se lhe seguiram da Casa de Han, a função dos seus ministros e de outros servidores era poderoso precedente a justificar o monopólio do serviço civil, finalidade dos confucionistas. Por isso, o ingênuo encanto que geralmente encontramos no mito e na lenda desvanece-se, na China, nos corredores climatizados de uma burocracia imaginária. Só se consegue uma imagem corrigida dessa construção fictícia do passado através do exame rigoroso das numerosas alusões aos heróis e aos notáveis que sobreviveram na vasta literatura e escaparam à distorção confucianista, e pela avaliação dos textos alusivos e por vezes crípticos de obras como o Shan hai jing (Clássico das Montanhas e Mares) e do Chu zu (Poesia do Estado de Chu).
De toda a rica mitologia que aí se nos depara apenas podemos dar aqui alguns exemplos sugestivos. À cabeça dos Três Soberanos era geralmente colocado Foxi, que, no período Han, fora canonizado como o mais antigo. Chegou a ser descrito com corpo de dragão e cabeça de homem; o seu nascimento, à semelhança do dos fundadores de grandes dinastias, foi miraculoso: a mãe concebeu-o colocando-se sobre a pegada de um gigante. Inventou os Oito Trigramas, nos quais se baseava um sistema de adivinhação que os confucionistas adotaram no seu cânone (I Jing); igualmente inventou as redes e ensinou o seu uso na caça e na pesca. Em exame mais cuidadoso não se encontra, porém, prova concreta de uma genuína origem mitológica de Fu Hsi, conforme é descrito. É possível que tenha sido invenção dos confucianistas com a intenção de sufocar o clamor dos taoistas. Na sua filosofia estes fizeram largo uso do mito natural e dos conceitos animistas, sendo sérios competidores dos confucianistas nos cargos e influência no governo. Nü Wa, uma mulher posta ao lado de Foxi como irmã ou esposa, usava cinza de juncos para secar uma inundação e pedras de cinco cores para tapar um buraco no céu; e fixara o firmamento em quatro pilares feitos das pernas de uma tartaruga gigantesca. Seria, provavelmente, uma deusa cujos atributos estavam ligados ao domínio da chuva e das inundações. Dos Cinco Chefes, Shen Nung ensinou as artes da agricultura, do comércio e da medicina, tendo inclusivamente inventado uma cítara de cinco cordas (qin). Yen Ti tem as marcas de um antepassado tribal. Huang di, que aparece em primeiro lugar na maioria das listas dos Cinco Chefes, escreve-se com caracteres que significam “imperador amarelo” e, como tal, é provavelmente uma criação dos daoistas. Mas Huang di, escrito de outra maneira, era o nome do deus supremo que dominava sobre os deuses venerados no período Shang.
Ao interpretar tais fragmentos mitológicos, os investigadores sugeriram que muitas das personagens teriam como origem antepassados ou divindades locais, depois absorvidas pelas histórias e crenças do povo Han, à medida que se formou pela junção das tribos aparentadas e, posteriormente, à medida que se formou pela junção das tribos aparentadas e, posteriormente, à medida que estendia os seus domínios unindo-se a tribos, de parentesco menos chegado, que habitavam os territórios do Sueste e do Sul. São três os pontos característicos da mitologia: a recorrência e a semelhança das histórias das inundações, a ausência de qualquer conceito de mundo subterrâneo e a falta de um mito da Criação que pertença claramente à China Central e ao povo Han em sentido estrito. É lógico procurar na bacia inferior do rio Amarelo a origem e as alusões locais às lendas das inundações. Pensa-se que histórias de inundações ligeiramente diferentes ligadas à lendas dinásticas das Casas de Xia e de Shang se explicam por serem oriundas, respectivamente, das regiões ao sul e ao norte do delta do rio Amarelo, em regiões tradicionalmente associadas com os começos das duas linhas dinásticas. Yü, sucessor de Shun, o último favorito confucionista dos Cinco Chefes, recebera ordem para dominar uma terrível inundação que seu pai não conseguira controlar, incorrendo na condenação pelo imperador Yao. Yü foi bem sucedido e fundou, mais tarde, a dinastia de Xia. No entanto, existem alusões a Yü, de caráter totêmico tribal e de culto local, pelo que persiste certa ambigüidade no que respeita aos papéis que pai e filho teriam desempenhado na inundação. Igualmente um herói de inundações não menos famoso, Kung Kung, é mencionado em diversos textos, breves e dispersos, que nos deixam na incerteza se ele teria provocado a inundação, se a teria intencionalmente agravado ou se apenas a sustara, o que, aliás, principalmente se lhe atribui. Foi Kung Kung quem lutou contra Chuan Xiu (um dos Cinco Chefes, normalmente colocado em segundo lugar) pelo governo do império. Foi derrotado, não sem primeiro ter dobrado a montanha de Pu Chou, que sustentava o céu, batendo-lhe com a própria cabeça, do que resultou terem os céus ficado descaídos no noroeste, originando, para as estrelas, movimento de oriente para noroeste e, para os rios, um curso em sentido oposto.
O único mito autêntico da Criação, conservado na antiga literatura chinesa, parece ter sido adotado da área meridional de povos não chineses, cuja assimilação à cultura Han se processava gradualmente desde os tempos mais remotos e que até hoje ainda não se completou. A história refere-se à Pan Ku, descrito como “um cão de muitas cores” que se diz ter nascido do caos primitivo e que, ao morrer, teria dado origem à China e ao universo que a rodeia. A lenda dos serviços prestados por Pan Ku ao imperador Gao Xin (também chamado Ti Ku, um dos Cinco Chefes) na derrota dos bárbaros do Sul, e do seu casamento com a filha do imperador, registra mitologicamente a mais remota penetração chinesa no Sul, enxertando assim uma significativa tradição local no mito Han.

por W. Watson China Antiga. Lisboa: Verbo, 1969